quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Metodologias, Livre Interação e a CNV (comunicação não violenta)

Em conversa com Sergio Venuto e Jaqueline Caliman pude refletir melhor sobre a metodologia da Comunicação não Violenta (CNV). Fica claro que ela foi criada para atender à um interesse. O que se entende de forma mais ampla por comunicação não violenta nada mais é do que se comunicar, interagir livremente, tentar não demandar um comportamento ou atitude do outro, aceita-lo como ele é. De forma pré configurada o título de não violência, a técnica, só é necessária para criar a figura de um vendedor, um facilitador, um "como fazer" e assim conseguir extrair algo dali. É preciso que se configure um formato, um produto, para que se venda.

Dentro da manifestação não violenta, o trabalho de um "facilitador" seria algo como:
- Eu preciso de dinheiro para pagar as dividas que eu fiz esse mês, alguém pode me ajudar com isso?
e ainda:
- Eu gosto de observar e falar sobre comunicação e interação com o outro. Quem mais gostaria de falar sobre isso?
Percebe que são 2 coisas distintas?!

Entretanto, em palestras e workshops não se separa essas duas coisas e fica algo como:
- Existe uma técnica para mediação de conflitos e eu me proponho a estuda-la e compartilhar com quiser. Fiquem a vontade para contribuir com meu trabalho.
Separar as duas coisas põe fim ao papel do facilitador, permitindo que as pessoas percebam seus próprios caminhos de interagir e fluir livremente. Conversando sobre o tema. E não ouvindo o que alguém com "mais experiência" tem para falar sobre o tema. Existem infinitas técnicas. Tantas quanto pessoas. Acreditar em uma é desfavorecer a descoberta das demais. O facilitador, acredito que as vezes sem perceber, cria uma necessidade para deter o poder da atenção, passar a informação para enfim se vender como algo necessário. Grosso modo é um marqueteiro criando necessidades desnecessárias.

A criação do método só é aceita porque é comum vivermos em ambientes centralizados, não livres, onde alguém quer vencer, ter a razão, defender seu ponto de vista. Quando há a manifestação da cooperação, do ganha-ganha, em um ambiente, não é necessário um método pré-definido. O ambiente livre trás o estimulo, permite que as pessoas busquem a compreensão do conflito. As pessoas ali, estão interessadas em explorar sua forma de se comunicar com o outro, estão atentas à interação. Se isso não existe por uma das partes envolvidas na interação ela já não está sendo livre e a tentativa de "torna-la" livre é uma tentativa de instrumentalização do outro. Na minha opinião um ato violento, desrespeitoso.
Sem a experiencia de conviver em um ambiente livre, ou pelo menos mais livre, fica dificil entender o que quero dizer. Nesse ponto a prática de vida em comunidade ajuda.
Desaprendemos a viver em comunidade. A escola desempenha bem essa função. Desumanizar o ser humano.

Falar sobre comunicação não violenta é lindo, o problema, a violência, surge quando há uma formatação de como se comunicar. Quando se configura um produto exclusivamente com a intenção de vender. Quando não estamos mais apenas debatendo sobre o tema. Se há apenas conversa e a partir dai as infinitas formas de co-desenvolvimento, não há um terceiro que se beneficia disso. Apenas as partes interagentes se beneficiando, ou não, da interação.

É mais tentador adotar um método de como interagir "melhor", "mais verdadeiramente" com o outro, em ambientes centralizados como: família, escola, empresa, porém não é legítimo. Com um método, não aprendemos a lidar com conflitos e sim com o conflito específico. Para aprender a lidar com conflitos é preciso esperar que ele se manifeste e observa-lo atentamente para uma possível solução a partir dali. O próprio embate gera a solução. É preciso estar atento. Observar a interação. Podemos trabalhar internamente, entendendo as razões do nosso desconforto, e isso dá trabalho, ou podemos continuar interagindo com o outro e juntos buscarmos a melhor compreensão da nossa interação naquele momento. Com a ajuda do outro, entender o conflito que surgiu da interação, da menos trabalho. Mas o outro precisa estar aberto à isso. Precisa desejar. E nós não temos poder sobre o outro. Querer que alguém queira é ultrapassar o limite do respeito. É violência.

Assim como se calar diante de uma circunstancia conflituosa. Você não quer a resolução do conflito. Você está se esquivando da responsabilidade pelo que sentiu. O que você quer é uma garantia da manutenção da harmonia na interação, nem que isso te custe a frustração ou trabalhar as razões de seus incômodos introspectivamente, que é bem legal, mas é desonesto com o outro. Ele não sabe o que você sentiu e você não permite que ele saiba por medo de ter que lidar com o conflito. Isso só existe em uma relação não livre. Em um ambiente livre é natural que a expressão das emoções sejam contempladas e ouvidas na interação.

Se o ambiente é livre não há método, nem regras de convívio pré estabelecidas. O que não significa dizer que não há limites. Os limites vão sendo percebidos a todo momento na relação com o outro, pois há o fenômeno social, a percepção de que há outro ser humano ali. Existe mais limites em um ambiente livre do que em um ambiente centralizado.



Um comentário:

  1. Aqui em casa gostamos muito, bastante útil pras questões que andam rondando relações familiares e com amigos
    abç

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