"Eu podia chorar a vida inteira pelas verdades doídas. Pelas frustrações corriqueiras. Pelas Desilusões. Incompreensões. Pela fome e sede e doenças... mas, acontece que sou ridículo o bastante, para transbordar de alegria!
Vou seguindo pela estrada, os pés descalços. A pele quente e bronzeada. Os músculos endurecidos de aves de rapina. Em cima: a imensidão de um céu azul e branco e infinito...
Eu podia chorar!
A caminhada é longa... o cansaço me consome. No meio do caminho, deparo-me com uma pousada: Feliz-Cidade... Sigo ao encontro dela.
O céu ainda mais azul. A estrada cinza. As paredes da pousada carregadas de verde e rosa. Flores charmosas em tons de amarelo-manga, azul-anil, verde-bandeira. O gramado verde. Ao fundo, um lindo e majestoso cavalo branco e por fim, uma ninfa de pés descalços e vestido floral... A transparência do tecido, revelando seus belos e firmes seios...
Eu podia chorar... Grillet. Tarkovski. Copolla. Almodovar...
Pago pelo quarto com frigobar e TV a cabo. Pago por duas cervejas nacional e por uma refeição à moda da casa.
A noite cai. Encaro-me no grande espelho do quarto: um homem com um corpo de homem, e músculos de homem. A barba (ainda), de pelos pretos invadindo cada vez mais a face... E a Alma?
Eu podia chorar! -Pensei.
A Alma é feminina! Daquelas que acreditam no amor e nas crianças. Na arte, na doçura do preparo de um café e na entrega total ao escrever...
Eu podia chorar a vida inteira... Mas, aí vem a vida, e me permite ser ridículo e sonhador e idealista.
O dia amanhece... Aos poucos, vou deixando para trás: Feliz-Cidade."
André Kaires

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